Este caso ilustra, no plano nacional, a tendência global descrita no cartão sobre a premissa "colha agora, decifre depois": a migração regulada da criptografia de chave pública para algoritmos pós-quânticos, antes que computadores quânticos tornem legível o tráfego criptografado interceptado hoje. O Brasil oferece um exemplo de movimento normativo precoce sobre uma das maiores infraestruturas de confiança digital do mundo. Em 13 de novembro de 2025, o ITI (Instituto Nacional de Tecnologia da Informação, autoridade certificadora raiz do país) e a Kryptus, fabricante brasileira de módulos criptográficos, realizaram a primeira assinatura digital pós-quântica experimental do país — com o algoritmo ML-DSA, padrão do NIST, rodando em hardware nacional (o módulo kNET, que já sustenta as cadeias de certificação da AC-Raiz e o portal Gov.br, com certificação do programa de validação de algoritmos do NIST desde 2024). Em 30 de janeiro de 2026, a Instrução Normativa ITI nº 35 formalizou a transição: incorporou ML-DSA e ML-KEM aos padrões da ICP-Brasil (Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira — o arcabouço que dá validade jurídica a certificados e assinaturas digitais, de contratos a prontuários e notas fiscais), definiu tamanhos de chave e prazos de validade, e anunciou as primeiras assinaturas avançadas pós-quânticas da plataforma Gov.br — que registra mais de um milhão de validações por dia — ainda no primeiro semestre de 2026, com avaliação de carimbo do tempo. Em junho de 2026, a Portaria nº 38 instituiu o Grupo de Trabalho Técnico sobre Criptografia Pós-Quântica, com 90 dias para entregar diagnóstico de risco, plano de migração com cronograma e estratégia de transição híbrida (clássica + pós-quântica). Ao redor do Estado, o SERPRO (estatal de processamento de dados do governo federal) já testa algoritmos PQC e revisa bibliotecas criptográficas; o CPQD (centro de pesquisa de Campinas) toca um projeto de R$ 12,2 milhões e 30 meses com o MCTI para montar um testbed de QKD (distribuição quântica de chaves), PQC e geração quântica de números aleatórios; e, no setor privado, o banco Inter estuda desde 2024, com USP, FGV e Microsoft, a aplicação de PQC ao Drex, o real digital do Banco Central. O ponto cego está no coração financeiro: o DICT (diretório de chaves do Pix) autentica instituições com certificados ECDSA P-256 ou RSA-2048 e exige comprovantes verificáveis por anos — e o Banco Central não tem, até meados de 2026, nenhuma resolução pública sobre PQC, enquanto BIS, BCE, Federal Reserve e o banco central de Singapura já publicaram diretrizes ou pilotos; a pilha criptográfica do Drex, baseada em provas de conhecimento zero sobre curvas elípticas clássicas, também não é quântico-resistente — e não existe substituto pronto (análise técnica setorial, não posição oficial do BC).
E daí?
O caso brasileiro revela uma prontidão bifurcada: a camada de certificação e identidade digital migra na vanguarda — com a rara vantagem soberana de hardware criptográfico nacional certificado, que reduz a dependência de fornecedores estrangeiros que o próprio CPQD aponta como motivação da corrida global —, enquanto a camada de pagamentos, a mais visível do país no exterior (Pix é referência mundial), ainda depende de criptografia clássica e de iniciativa regulatória que não saiu. Efeitos de segunda ordem: a migração da ICP-Brasil arrasta por desenho toda a cadeia de autoridades certificadoras, cartórios, bancos e softwares de assinatura — um efeito procurement semelhante ao americano; a questão probatória é aguda num país de contencioso digital intenso, pois assinaturas antigas forjáveis retroativamente (via algoritmo de Shor, quando houver máquina) corroeriam o valor de prova de contratos e comprovantes já emitidos, problema que exigiria reassinatura massiva ou carimbos do tempo quântico-resistentes; e a janela se estreita: análises setoriais estimam que o BC segue o BIS com defasagem média de 18 a 24 meses, o que colocaria uma exigência formal para o sistema financeiro por volta de 2026–2028, com prazos de adequação de trimestres, não anos.
O que muda?
De: confiança digital brasileira sustentada por RSA e curvas elípticas, com validade jurídica presumida permanente → Para: ICP-Brasil pós-quântica com agilidade criptográfica planejada, puxando Gov.br, certificados digitais e, na sequência, a infraestrutura de pagamentos. Estágio atual: acelerando na camada de certificação (norma publicada, primeiro teste realizado, grupo de trabalho ativo); nascente na camada financeira (estudos e análises, sem regulação do Banco Central até o momento).
Imagens
Kryptus