Nas primárias de 4 de agosto de 2026 para o 9º Distrito Congressional de Washington (região de Seattle, Bellevue, Renton e Kent), Kshama Sawant — ex-vereadora de Seattle por três mandatos (2014–2023) e a política socialista independente mais conhecida dos Estados Unidos — disputou uma vaga na Câmara dos Representantes contra o democrata Adam Smith, que ocupa o cargo desde 1997 e é o membro mais graduado do partido no Comitê de Serviços Armados da Câmara. Sawant concorreu fora do Partido Democrata, num distrito fortemente democrata, com plataforma abertamente marxista: fim de toda ajuda militar a Israel, saúde pública universal financiada por taxação dos ricos, controle nacional de aluguéis e salário mínimo nacional de 25 dólares. Na primária do tipo "top-two" — sistema em que todos os candidatos disputam num único turno e só os dois mais votados avançam — ela terminou em terceiro lugar, com cerca de 17% dos votos (24.406 votos), atrás de Smith (47,2%) e do republicano Doug Basler (21,9%), ficando fora da eleição de novembro. O que distingue o episódio de uma derrota eleitoral comum é a tese estratégica que a campanha explicitou: em entrevista à Newsweek dias antes da votação, Sawant declarou que a estratégia dos progressistas eleitos pelo Partido Democrata — personificada por Alexandria Ocasio-Cortez (AOC) e pelos candidatos apoiados pelo DSA (Democratic Socialists of America, maior organização socialista dos EUA, que em geral disputa primárias democratas) — "não está funcionando", acusando essa ala de fazer as pazes com a cúpula partidária. A campanha, apoiada pela organização Workers Strike Back e endossada pelo Partido Verde de Washington, arrecadou cerca de 645 mil dólares (mediana de doação de 25 dólares, com mais de oito vezes o número de doadores do incumbente) e se apresentou como "a mais forte já feita por um candidato abertamente marxista ao Congresso americano".
E daí?
Desde as campanhas de Bernie Sanders (2016, 2020) e a eleição de AOC (2018), a premissa operacional da esquerda americana é que a mudança passa por candidaturas insurgentes dentro do Partido Democrata — a chamada "via interna". A campanha de Sawant é a primeira tentativa organizada, com infraestrutura nacional (Workers Strike Back), captação expressiva de pequenos doadores e narrativa pública articulada, de disputar essa premissa em eleição federal — e de fazê-lo atacando nominalmente as figuras-símbolo da via interna. Mesmo derrotada, a candidatura obteve um sexto do eleitorado num distrito suburbano e tradicionalmente moderado, o que núcleos da esquerda radical americana (como o Left Voice e o Black Agenda Report) já interpretam como prova de que existe espaço eleitoral para política de classe independente dos dois partidos. Em sentido contrário, analistas locais — inclusive um colunista do The Daily UW que já integrou a organização de Sawant — leem o resultado como desperdício de recursos num distrito hostil, e a própria campanha reconhece ter enfrentado boicote da mídia, hostilidade de lideranças do DSA e endossos sindicais ao incumbente. A disputa expõe uma cisão estratégica real na esquerda dos EUA em ano de midterms: construir poder dentro do Partido Democrata ou construir um partido próprio da classe trabalhadora. Premissa desafiada: a de que a energia política da esquerda americana só se converte em vitórias concretas por meio de candidaturas internas ao Partido Democrata, e de que candidaturas independentes de esquerda são eleitoralmente inviáveis ou funcionalmente pró-republicanas.
O que muda?
De: consenso pós-2016 na esquerda americana em torno da estratégia de insurgência dentro das primárias democratas (Sanders, AOC, DSA, "The Squad") como única via realista de poder → Para: emergência de um polo organizado que defende publicamente a construção de partido independente da classe trabalhadora e trata a via interna como beco sem saída, testando essa tese em eleição federal. Estágio atual: nascente e fragmentário — uma campanha derrotada, uma organização militante nacional e endossos regionais, sem representação eleita nem replicação comprovada em outros distritos.
Se sinal crescer
Se a tese da via independente ganhar tração — por exemplo, com novas candidaturas socialistas fora do Partido Democrata em 2028 ou com o avanço do plano do Partido Verde de Washington de disputar as sete cadeiras do legislativo de Seattle em 2027, agora sob votação por preferência ordenada (ranked choice voting) — os efeitos incluiriam: pressão competitiva sobre o DSA e os progressistas eleitos, forçados a justificar concessões à cúpula democrata; possível fragmentação do voto de esquerda em distritos competitivos, com externalidades para o equilíbrio partidário nacional; aceleração de iniciativas de plebiscito local que contornam os dois partidos (a organização de Sawant já prepara uma iniciativa em Seattle para taxar grandes empresas em 5 bilhões de dólares ao ano e financiar saúde gratuita universal municipal); e reabertura do debate sobre acesso ao voto e reformas eleitorais nos EUA, historicamente hostis a terceiros partidos.
Imagens
Sou Mi / Left Voice