Investigação conjunta da Bellingcat e da plataforma Josimar (outubro de 2024) identificou uma rede de locais na Rússia, Ucrânia e Belarus onde partidas amadoras são encenadas continuamente para transmissão exclusiva na casa de apostas 1xBet — em um único dia de setembro, foram transmitidos 1.297 jogos de "short football", partidas de cerca de 10 minutos entre times de três a cinco jogadores. Os jogadores trocam de camisa entre partidas em quadras adjacentes separadas por cortinas, de modo que um "Arsenal" vira "Amsterdam" ou "Dortmund" — o essencial é que haja sempre um jogo apostável, dia e noite. Estima-se cerca de meio milhão de partidas de short football transmitidas por ano só nesse formato, com aproximadamente 5 milhões de espectadores mensais, e participantes pagos para jogar em turnos ininterruptos em galpões e arenas convertidas. Alguns locais foram rastreados até uma escola infantil de futebol em Bryansk, com menores de até 14 anos atuando sem saber para audiências globais de apostas. Os formatos incluem ainda air hockey, críquete de duplas, tênis de mesa, "bench soccer" e "table basketball", filmados por câmeras de baixa resolução em espaços improvisados.
E daí?
O fenômeno inverte a lógica da relação entre esporte e apostas: o jogo deixa de ser um evento cultural sobre o qual se aposta e passa a ser um insumo fabricado sob demanda pela própria plataforma — esporte como "conteúdo de fricção zero" para extração financeira contínua, análogo às fazendas de cliques e de engajamento. Isso cria um conflito de interesses estrutural (quem organiza o evento é quem banca as apostas), condições propícias a manipulação de resultados e lavagem de dinheiro, e uma zona cinzenta trabalhista com jogadores em turnos exaustivos e menores de idade. Para o Brasil, a relevância é direta: a marca 1xBet foi autorizada a operar no mercado regulado brasileiro pela Portaria SPA/MF nº 1.666, de 29 de julho de 2025, por meio da empresa DEFY Ltda, com licença válida até 2030 — ou seja, um operador associado a essas práticas atua legalmente sob a Lei das Bets, expondo limites do modelo regulatório nacional, que licencia a operação de apostas mas tem pouca capacidade de auditar a autenticidade dos eventos ofertados.
O que muda?
Se o modelo se consolidar, a fronteira entre esporte, entretenimento sintético e instrumento financeiro se dissolve. Reguladores precisariam deixar de tratar apenas a integridade da aposta (odds, pagamento, KYC) e passar a certificar a integridade do evento — algo para o qual nenhum marco regulatório atual, incluindo a Lei 14.790/2023, está desenhado. Federações esportivas perdem o monopólio simbólico sobre o que conta como "esporte", e clubes patrocinados por esses operadores (a 1xBet mantém parcerias com FC Barcelona, PSG e a Confederação Africana de Futebol) ficam expostos a risco reputacional crescente.
Se sinal crescer
A produção de eventos apostáveis sintéticos pode se tornar uma categoria própria da indústria de iGaming, com outros operadores replicando o modelo em regiões de baixa fiscalização (África, Sudeste Asiático, América Latina) e eventual hibridização com esportes virtuais gerados por IA — tornando indistinguível, para o apostador, o evento real, o encenado e o simulado. Isso forçaria o surgimento de mecanismos de certificação de autenticidade de eventos esportivos (selos de integridade, rastreabilidade de transmissões), pressão sobre patrocínios esportivos e possível revisão das licenças concedidas no mercado brasileiro regulado. No plano social, ampliaria a precarização de jovens atletas amadores convertidos em mão de obra de "fazendas de conteúdo apostável".
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Roman Chekhovskoy/ Getty Images