Na construção da edição 2026 do The Global 50, a Dubai Future Foundation submeteu suas cinco incertezas estruturais a mesas-redondas com comunidades de futuristas, formuladores de política e especialistas de mais de 100 países. Na incerteza sobre colaboração internacional, a multipolaridade dominou as discussões como descrição do presente — e emergiu a pergunta-limite: "e se a cooperação global se tornar impossível?". A expectativa majoritária dos participantes foi a de um multilateralismo renovado em novas formas institucionais, com atores neutros ocupando o vácuo para mediar governança de IA e ciência. Mas o cenário extremo permanece mapeado como possibilidade de baixa probabilidade e impacto sistêmico: a impossibilidade efetiva de coordenação entre grandes potências.
E daí?
Se materializado, o cenário desmonta premissas operacionais inteiras. Sem cooperação: a governança de IA fica sem piso comum num momento em que modelos cruzam fronteiras por desenho; fluxos transfronteiriços de dados — que sustentam uma economia digital de cerca de 17,3% do PIB global, aproximadamente US$ 20 trilhões — entrariam em fragmentação acelerada, e o próprio relatório estima que, se todos os países restringissem seus fluxos de dados, o PIB global cairia 4,5%; a agenda climática perderia o mecanismo de coordenação justo quando nenhum dos 45 indicadores alinhados ao Acordo de Paris está no caminho das metas de 2030; e padrões técnicos (de pagamentos a criptografia pós-quântica) bifurcariam em blocos incompatíveis, elevando o custo de tudo, de chips a remessas.
O que muda?
De: interdependências globais administradas — ainda que precariamente — por instituições multilaterais e padrões compartilhados → Para: blocos tecnológicos e monetários fechados, com vacância de bens públicos globais e redundância forçada em cada jurisdição. Estágio atual: improvável na avaliação dos próprios participantes do relatório, mas a direção observada em 2025–2026 (tarifas, screening de investimentos em 80% das economias da OCDE, fragmentação regulatória de dados em 79% dos países) empurra o cursor na direção oposta à da cooperação — o que justifica manter o cenário no radar de contingência.
Imagens
UN Photo/Loey Felipe