No Brasil, o mercado regulado de apostas de quota fixa (as "bets", legalizadas pela Lei 14.790/2023 e em operação plena desde 2024) registrou receita bruta de R$ 37 bilhões no primeiro ano regulado, com 25,2 milhões de apostadores, dos quais 31,7% mulheres . A pesquisa Mulheres e Bets: o Custo das Apostas Online para as Brasileiras e suas Famílias (Estúdio Clarice, Estratégia Latina e Instituto Ideia, divulgada em agosto de 2026, com 2.008 entrevistados em amostra nacional) revela que 42% das mulheres brasileiras apostam ou já apostaram, e que outras 12% — embora nunca tenham jogado — sofrem os impactos das apostas de parceiros e familiares; somadas, 54% das mulheres são atravessadas diretamente pelo fenômeno . O perfil das apostadoras concentra-se nas classes C, D e E: 56% das mulheres brasileiras se declaram endividadas, proporção que chega a seis em cada dez nas classes D e E . O traço distintivo é a motivação: diferentemente do imaginário de enriquecimento rápido, as mulheres entram nas plataformas tentando completar o orçamento doméstico — pagar boletos, comprar material escolar, dar um presente ao filho. Mães apostam cerca de 1,6 vez mais do que mulheres sem filhos, e 72% das apostadoras têm filhos . Entre elas, a modalidade preferida são os cassinos online (49% jogam roleta, caça-níquel, "Tigrinho"), não as apostas esportivas — 26% apostam em futebol, contra predominância masculina nessa modalidade . O contexto sistêmico é de captura maciça de renda pobre pelo setor: entre R$ 18 e R$ 21 bilhões por mês foram transferidos via Pix para bets em 2024 (Banco Central), incluindo R$ 3 bilhões vindos de beneficiárias e beneficiários do Bolsa Família, com gasto mediano equivalente a 15% do benefício mensal .
E daí?
A tendência desloca o debate sobre as bets do campo financeiro individual para o campo da economia do cuidado. Como a responsabilidade de manter a casa e cuidar dos filhos recai majoritariamente sobre as mulheres, as plataformas passaram a explorar exatamente esse gargalo — a promessa de cuidar melhor da família — instalando o que a pesquisa chama de armadilha entre cuidado e culpa: a aposta surge como meio legítimo de prover e, quando fracassa, aprofunda endividamento e responsabilização individual . Os efeitos de segunda ordem já são mensuráveis: 67% das mulheres avaliam que as apostas estão acabando com as famílias brasileiras; 23% dos brasileiros presenciaram ou conhecem situações de violência familiar associadas ao jogo; 7% das apostadoras já recorreram a agiotas . Há ainda um canal de reprodução intergeracional: crianças e adolescentes burlam a proibição de menores usando o CPF de um adulto da casa, frequentemente da própria mãe . No plano regulatório, o fenômeno ganha densidade política: 62% das mulheres defendem a proibição total dos jogos online no Brasil — contra 50% dos homens — e 70% da população nunca ouviu falar do sistema de autoexclusão do governo federal, o que indica lacuna grave entre o desenho das proteções e seu alcance efetivo . A rejeição transversal às bets, cortando campos ideológicos, tende a pressionar a agenda eleitoral de 2026 e a tramitação de restrições à publicidade — o PL 2.985/2023, aprovado no Senado em 2025, já veda anúncios com atletas e influenciadores e proíbe apresentar apostas como solução financeira ou fonte de renda . Para formuladores de política pública, o recorte impõe desenhar respostas de saúde, proteção social e regulação de publicidade que considerem a mulher não só como apostadora, mas como gestora dos danos do jogo alheio.
O que muda?
De: apostas online compreendidas como entretenimento individual e fenômeno majoritariamente masculino, com regulação focada em arrecadação e integridade esportiva → Para: apostas reconfiguradas como mecanismo de captura do orçamento de cuidado das famílias pobres, no qual mulheres das classes C, D e E aparecem simultaneamente como usuárias crescentes, como vítimas indiretas do jogo de terceiros e como o principal eleitorado mobilizado pela proibição. Estágio atual da transição: acelerando, com evidência nacional consolidada em 2026 e pressão regulatória em curso, mas ainda sem políticas públicas dimensionadas para o recorte de gênero.
Imagens
Folhapress / Intercept Brasil
CNC, Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), março/2026. / Intercept Brasil