Um conjunto crescente de pesquisas em psicologia social e saúde pública vem articulando uma cadeia causal que liga a ideologia econômica dominante à radicalização on-line de jovens homens. O primeiro elo é experimental: o estudo de Becker, Hartwich e Haslam (2021, British Journal of Social Psychology, com quatro experimentos e mais de 900 participantes no total) demonstrou que a simples exposição a descrições de uma sociedade neoliberal — entendida aqui como o arranjo ideológico que enfatiza responsabilidade individual, competição e autossuficiência, em detrimento de apoio social e solidariedade — aumenta a solidão e reduz o bem-estar, por dois caminhos: fazer as pessoas verem os outros como concorrentes e corroer o sentimento de conexão. O segundo elo é epidemiológico: o relatório da Comissão de Conexão Social da OMS — Organização Mundial da Saúde (junho de 2025) constatou que uma em cada seis pessoas no mundo sofre de solidão, com as maiores taxas justamente entre adolescentes e jovens adultos (17% a 21% entre 13 e 29 anos), e estimou 871 mil mortes anuais associadas à solidão e ao isolamento; a OCDE — Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (relatório de outubro de 2025) identificou os homens jovens de 16 a 24 anos como o grupo com a maior deterioração em conexão social entre 2018 e 2022 nos países-membros. O terceiro elo é o comportamental: essa juventude solitária e pressionada a medir o próprio valor por produtividade e desempenho encontra na machosfera (também chamada manosfera — rede de comunidades on-line misóginas que inclui fóruns incel, sigla para "celibatários involuntários", e influenciadores de "autoaperfeiçoamento masculino") uma oferta precisa de alívio emocional: pertencimento, explicação para o fracasso e um bode expiatório (mulheres, feminismo, minorias). Pesquisadores como Sophie Lively (Newcastle University) argumentam que a machosfera não cria essa dor — ela a colhe pronta, produzida pelo próprio sistema, e a monetiza via economia da atenção das plataformas. Dados de apoio: segundo a Movember Foundation, dois terços dos jovens homens consomem regularmente conteúdo de influenciadores de masculinidade; a Equimundo (instituto de pesquisa sobre masculinidades) constatou que dois terços dos jovens americanos sentem que "ninguém realmente me conhece".
E daí?
Premissa desafiada: a convenção de que a atração de jovens pela machosfera é um problema de escolhas individuais, valores familiares ou conteúdo tóxico das plataformas — e não um sintoma emocional previsível de um arranjo socioeconômico que produz isolamento em escala. Se o sinal estiver correto, a solidão juvenil deixa de ser questão de saúde mental individual e passa a ser variável de segurança social: o mesmo mecanismo que o advisory (alerta oficial) do Cirurgião-Geral dos Estados Unidos classificou em 2023 como epidemia de saúde pública funciona, simultaneamente, como funil de recrutamento para ecossistemas misóginos. Isso tem implicações de segunda ordem: políticas de moderação de conteúdo tornam-se paliativas se a demanda emocional pelo conteúdo continua sendo produzida; e o custo do neoliberalismo, tradicionalmente contabilizado em termos econômicos (desigualdade, precarização), ganha uma contabilidade emocional — vergonha, anomia (ausência de normas e referências compartilhadas), competição permanente — que explica por que a oferta de "comunidade" da machosfera é tão eficaz mesmo entre jovens de famílias estáveis, como o personagem da série Adolescence (Netflix, 2025) dramatizou.
O que muda?
De: solidão juvenil lida como patologia individual e atração pela machosfera lida como falha moral ou de moderação de plataformas → Para: solidão juvenil compreendida como externalidade emocional de um sistema competitivo-hiperindividualista, e a migração para a machosfera como consequência estrutural dessa externalidade. Estágio atual da transição: nascente — os elos da cadeia têm evidência sólida e independente, mas o modelo integrado ainda não atravessou o muro entre a literatura acadêmica e o desenho de políticas públicas.
Se sinal crescer
Se o modelo causal se consolidar, a prevenção da radicalização juvenil migraria do terreno da regulação de conteúdo para o da infraestrutura de conexão social — investimento em "terceiros lugares" (espaços públicos de convívio que não são casa nem escola), saúde mental masculina, redes comunitárias e reforma de ambientes escolares e de trabalho orientados à competição. A solidão passaria a ser tratada como indicador de risco de radicalização, integrando protocolos de educação e segurança. Em contrapartida, governos e plataformas perderiam a narrativa confortável do "influenciador tóxico" como causa suficiente — e o debate sobre a machosfera viraria, inevitavelmente, um debate sobre o próprio modelo econômico. O risco político é o caminho inverso: se o sinal for ignorado, a combinação de solidão crescente entre homens jovens (documentada pela OCDE) com a monetização algorítmica dessa dor pode transformar um fenômeno de nicho em divisão geracional permanente.