O Data/Cyber Ecofeminismo é um arcabouço teórico-político emergente que articula ecofeminismo decolonial, estudos críticos de dados e ciência-tecnologia-sociedade (STS) para interrogar a IA generativa não apenas como artefato discursivo, mas como cadeia material de extração que reproduz lógicas patriarcais, coloniais e capitalistas. A linhagem inclui o cyber/ecofeminismo de Kaarina Kailo e Cornelia Sollfrank (anos 2000), que recusou a dicotomia entre ciberfeminismo (tecnofílico) e ecofeminismo (essencializado como antitecnológico), e o ciberfeminismo da VNS Matrix, Sadie Plant e Donna Haraway (anos 1990). A consolidação contemporânea ocorre em 2025 com o paper 'Data Ecofeminism' de Ana Valdivia (Oxford Internet Institute), apresentado no ACM FAccT 2025 em Atenas, que propõe sete princípios: (1) examinar estruturas de poder na crise climática; (2) considerar a materialidade digital e cadeias de suprimento; (3) tornar visíveis e auditáveis os impactos ambientais da IA; (4) priorizar computação frugal e degrowth digital (permacomputing); (5) reivindicar soberania digital pública; (6) cultivar commons digitais via ajuda mútua; (7) tecer o pluriverso, integrando epistemologias indígenas e relacionais. O argumento central é que reabrir a usina nuclear de Three Mile Island (Microsoft, 2024) — mesmo local que originou o ecofeminismo nos EUA em 1980 — para alimentar GenAI sintetiza o ciclo histórico que o movimento sempre denunciou: tecnociência militar-corporativa que sacrifica corpos e territórios marginalizados (Vergès, Shiva, Federici, Ricaurte, Haraway).
E daí?
Se este enquadramento ganhar tração, deixa de ser viável sustentar a narrativa dominante de 'AI for climate' sem auditoria material da cadeia inteira (mineração de terras raras, fabricação de GPUs em Taiwan com mão de obra migrante, consumo hídrico de data centers em regiões com seca, descarte eletrônico no Sul Global). Implica reposicionamento de risco para investidores em GenAI, pressão regulatória crescente (a Energy Efficiency Directive 2023/1791 da UE e a Corporate Sustainability Due Diligence Directive 2024/1760 já antecipam essa exigência), e abre espaço político para alternativas como modelos pequenos (small/frugal AI), infraestrutura pública, direito ao reparo de hardware e proteção de territórios indígenas onde minerais de transição energética são extraídos. Para empresas brasileiras, é especialmente relevante a parceria NVIDIA-Petrobras citada no paper, que ilustra como o discurso de 'IA para o clima' coexiste com o uso de IA para abrir novas fronteiras de extração de óleo e gás.
O que muda?
Desloca o eixo da discussão sobre sustentabilidade de IA: de métricas isoladas de carbono (escopo dos relatórios CSR de Google, Microsoft, Meta) para uma contabilidade integrada de cadeia de suprimentos, justiça hídrica, e-waste, trabalho racializado e direitos territoriais indígenas. Reabre o debate sobre escala — questionando o axioma de que 'modelos maiores são melhores' (Bender et al., Stochastic Parrots) — e introduz na agenda da comunidade FAccT, da governança de IA e de fundos ESG critérios como soberania digital pública, permacomputing e relacionalidade radical (Escobar, Loncon). Pressiona convenções como AI Action Summit, IPCC AR7 e regulações nacionais a incorporar dimensões interseccionais que hoje ficam fragmentadas entre ministérios de meio ambiente, direitos humanos e tecnologia.
Se sinal crescer
Se o sinal escalar nos próximos 3-5 anos, é plausível observar: (a) emergência de uma categoria regulatória de 'IA frugal' ou 'IA de baixo impacto material' análoga à rotulagem energética europeia, com obrigatoriedade de divulgação de pegada hídrica e de e-waste por modelo treinado; (b) litígios estratégicos baseados na Supply Chain Act europeia contra big techs por impactos em comunidades indígenas e camponesas; (c) consolidação de uma alternativa de 'cloud pública europeia/sul-global' com governança democrática, retomando agendas de soberania digital (proposta Rikap-Durand-Marx); (d) deslocamento de capital de risco para small language models e arquiteturas eficientes (mistura de especialistas, destilação) como hedge contra exposição regulatória; (e) entrada de coletivos ecofeministas e indígenas como stakeholders formais em consultas sobre data centers, à semelhança do que ocorreu com mineração no Equador e Bolívia; (f) reformulação curricular em ciência da computação para incluir STS, materialidade e ecofeminismo decolonial — algo que o grupo HCI-TERRA (CHI 2026) já sinaliza.
Imagens
