A corrida por capacidade computacional para IA está transformando data centers em forças de alteração climática local. Estudo liderado por Andrea Marinoni (Grupo de Observação da Terra, Universidade de Cambridge), ainda em processo de revisão por pares, cruzou 20 anos de dados de temperatura de superfície obtidos por sensoriamento remoto (NASA) com a localização de mais de 6.000 data centers do tipo hyperscaler situados fora de zonas urbanas densas — justamente para isolar o calor das máquinas de outras fontes como indústria e aquecimento residencial. O resultado: aumento médio de cerca de 1,8 °C a 2 °C na temperatura de superfície após a abertura das instalações, chegando a 9,1 °C em casos extremos, com efeito térmico que se estende por um raio de até 10 km — o 'efeito ilha de calor de dados' — atingindo estimados 340 milhões de pessoas no mundo. Casos anômalos foram registrados no Bajío (México) e em Aragão (Espanha), com elevações de ~3,6 °C não observadas em áreas vizinhas. A força causal subjacente é termodinâmica e estrutural: todo watt consumido em computação vira calor a ser dissipado, e a IEA projeta que o consumo elétrico global de data centers dobrará de ~485 TWh (2025) para ~950 TWh em 2030, com a demanda dos data centers de IA triplicando no período. Ressalva metodológica: pesquisadores como Ralph Hindeman (Borderstep Institute) consideram os valores elevados e pedem confirmação independente antes de conclusões definitivas.
E daí?
O debate ambiental sobre IA, até aqui dominado por carbono e água, ganha uma terceira dimensão: o calor direto como externalidade regional mensurável. Isso muda o cálculo de licenciamento e de aceitação social dos data centers — comunidades no raio de 10 km tornam-se stakeholders térmicos, com potencial de judicialização, resistência local e novas exigências de estudos de impacto. Para governos que disputam investimentos em infraestrutura de IA (incluindo o Brasil, com sua agenda de atração de data centers via energia renovável e políticas como o Redata), o motor cria um trade-off estratégico: o mesmo ativo que promete soberania digital e receita pode agravar ondas de calor em territórios já vulneráveis. Para operadores, o calor deixa de ser apenas custo de refrigeração e vira passivo regulatório e reputacional — e, potencialmente, ativo: reaproveitamento de calor residual (district heating, agricultura, dessalinização) pode se tornar critério competitivo e exigência normativa, como já se discute na Europa.
O que muda?
Se o motor se consolidar, muda a geografia decisória da infraestrutura digital: zoneamento térmico passa a integrar planos diretores e licenciamento ambiental; métricas de eficiência do setor (PUE) são complementadas por indicadores de emissão térmica local e reuso de calor; seguradoras e financiadores precificam risco térmico regional; e a localização de data centers migra para lógicas bioclimáticas (latitudes frias, proximidade de corpos d'água, acoplamento com redes de aquecimento urbano). No plano epistêmico, consolida-se a compreensão do 'digital' como infraestrutura material com metabolismo termodinâmico — erodindo de vez a metáfora imaterial da 'nuvem' e fortalecendo agendas de justiça ambiental e soberania territorial na disputa sobre onde o calor da IA será depositado, e sobre quais populações.
Imagens

Amenaza Roboto com base em Landsat (NASA / USGS)