O QUE?
Uma investigação do Financial Times revelou que a BCG (Boston Consulting Group) modelou os custos e a viabilidade de um plano para “realocar” palestinos de Gaza, em articulação com um fundo de ajuda multimilionário. Ainda que apresentado como parte de um esforço humanitário, o projeto implicava o redesenho geopolítico de uma população sob ocupação e guerra — com apoio técnico de uma consultoria privada ocidental. O episódio gerou indignação e ativismo em redes profissionais, acendendo o alerta sobre o papel colonial contemporâneo das grandes consultorias, que passam a atuar como mediadoras tecnocráticas de remoções, extrativismo e reengenharia social, legitimadas pela linguagem da eficiência e da “ajuda”.
Que premissa esse sinal desafia?
Desafia a premissa de que a expertise corporativa é neutra, ética e despolitizada. Ao contribuir para estratégias que operam sobre corpos racializados e territórios marcados por dominação histórica, as consultorias globais atualizam a lógica da governança colonial: planificar, deslocar, reorganizar e explorar com base em racionalidades gerenciais ocidentais, apagando os saberes, resistências e autodeterminações locais.
E DAÍ?
Esse sinal fraco revela o fim da tolerância com atores estratégicos na continuidade do projeto colonial global: a consultoria estratégica como operador invisível de epistemologias coloniais. Por meio de análises de custo-benefício, modelagens logísticas e linguagem tecnocrática, firmas como BCG, McKinsey e outras traduzem traumas coletivos em dashboards e planos de ação, esvaziando os conflitos de sua dimensão política. Essa “neutralidade letal” pode tornar-se padrão em zonas de crise, onde o sofrimento vira dado e a reconstrução vira produto. Além disso, pode provocar rupturas internas – recusas éticas, denúncias, processos judiciais e erosão reputacional – e pressão para que o setor repense sua responsabilidade histórica.
Se o sinal ganhar escala e/ou distribuição, o que será impactado?
Consultorias estratégicas (ética, reputação, atração de talentos, contratos públicos)
Setor de ajuda humanitária e reconstrução pós-conflito
Movimentos decoloniais e palestinos, que passam a denunciar a atuação de grandes empresas no apoio a políticas de remoção forçada
Portfólios ESG de empresas envolvidas em zonas de guerra ou em contratos governamentais de alto risco político
Agendas de compliance, que precisarão lidar com zonas cinzentas entre legalidade e legitimidade
Se/quando o sinal se tornar mainstream, o que nunca mais será o mesmo?
A imagem de neutralidade técnica das consultorias globais
A distinção entre desenvolvimento e colonialismo, entre ajuda e controle
O papel da expertise ocidental como modelo legítimo de gestão de crises humanitárias
A própria definição de “impacto positivo” no campo da consultoria, hoje muitas vezes blindada por métricas autocentradas
A confiança social no planejamento tecnocrático como ferramenta de bem público
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