Uma análise publicada na revista *Nature* (25 de junho de 2025) examinou cerca de 19 mil artigos científicos e 23 mil patentes no campo da visão computacional, entre 1990 e 2020. A conclusão é que aproximadamente **90% dos estudos** e **86% das patentes** envolvem algum tipo de vigilância humana — incluindo rastreamento facial, identificação de padrões corporais e monitoramento comportamental. Longe de ser uma tecnologia neutra, a visão computacional tem sido predominantemente direcionada para o controle de pessoas.
E daí?
Isso significa que a maior parte do desenvolvimento tecnológico nessa área não está voltada para aplicações como saúde, robótica assistiva ou automação industrial, mas sim para **sistemas de monitoramento e controle social**. Essas ferramentas são frequentemente empregadas em contextos de repressão a protestos, controle autoritário e políticas públicas de biovigilância. A suposta neutralidade da tecnologia se desfaz diante de uma produção científica e mercadológica que alimenta, majoritariamente, a expansão da vigilância sobre corpos e comportamentos.
O que muda?
Esse diagnóstico altera a forma como pesquisadores, formuladores de políticas e a sociedade devem encarar a visão computacional. Em vez de tratá-la como um campo genérico e benéfico, é necessário: - **Reorientar incentivos** em agências de fomento e publicações científicas para estimular aplicações fora do escopo da vigilância. - **Criar regulamentações mais rígidas** sobre patentes voltadas ao monitoramento humano, especialmente em países com histórico de abusos autoritários. - **Exigir transparência** de empresas e instituições sobre os usos reais das tecnologias desenvolvidas. - **Promover debates éticos** que questionem o viés implícito na própria agenda de pesquisa da área. A mudança central é passar da aceitação acrítica da inovação para uma avaliação deliberada sobre quais usos da visão computacional queremos incentivar ou restringir.
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