O estudo 'Reset da Mesmice', conduzido pela Heineken em parceria com a Box1824 em abril de 2026 com mais de 1.000 entrevistados em todo o Brasil, identificou que 42,9% dos brasileiros declaram já não conseguir distinguir o que é seu gosto pessoal daquilo que foi sugerido por algoritmos de plataformas como Spotify, YouTube e TikTok. No recorte específico do consumo musical o número sobe para 49,2%; 60,9% afirmam que algoritmos são a principal porta de entrada para descoberta de música; e 7 em cada 10 dizem não conseguir mais explorar conteúdos novos sem algum direcionamento automatizado. O fenômeno é coerente com a literatura acadêmica recente, que documenta tanto a homogeneização do consumo via recomendação personalizada (Anwar et al., ACM Web Conference 2024; Chaney, Stewart & Engelhardt, RecSys 2018) quanto o que Joseph (Frontiers in Psychology, 2025) descreve como 'algorithmic self' — sistemas de IA que co-constroem identidade, introspecção e percepção de agência.
E daí?
A perda percebida de autonomia desloca o eixo de valor em mercados orientados a previsibilidade (entretenimento, mídia, varejo, alimentação, turismo). 48,9% dos brasileiros declaram querer reduzir a dependência de recomendações algorítmicas, 38,7% querem recuperar um gosto mais singular e 31,1% colocam isso como meta prioritária de bem-estar. Isso converge com um contramovimento 'anti-algoritmo' já observado globalmente — curadoria humana, mídia editorial premium, ferramentas como FreeTube, leitores RSS, celulares e-ink — e abre espaço para pressão regulatória sobre transparência algorítmica e direito à serendipidade, agendas que já tramitam em órgãos como OECD, UE (AI Act) e ANPD.
O que muda?
Marcas e plataformas perdem o monopólio da curadoria. Indústrias criativas (música, audiovisual, moda, gastronomia, turismo, vida noturna) passam a precisar oferecer simultaneamente acesso algorítmico e mecanismos de descoberta fora do algoritmo, criando um novo eixo competitivo baseado em credibilidade de curadoria humana e em experiências presenciais. O estudo já mostra esse deslocamento operando: 73,9% preferem conhecer pessoas presencialmente, 46,5% afirmam que shows entregam algo que a tecnologia não reproduz, 33,1% escolhem bares e festas por indicação de amigos (não por redes sociais), e o setor de bares acumulou alta de 2,8% no 1º trimestre de 2026 ante o mesmo período do ano anterior. Para o setor publicitário, a métrica de 'precisão preditiva' perde força frente a métricas de 'serendipidade' e 'singularidade' como atributos de marca.
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