Em 2026, pesquisadores da University College London (UCL) — Alex Ruani, Michael Reiss e Anastasia Kalea — publicaram o MisRAM (Misinformation Risk Assessment Model — Modelo de Avaliação de Risco de Desinformação) no Journal of Risk Research, um arcabouço de cinco etapas alinhado aos princípios de avaliação de risco a agentes perigosos da Organização Mundial da Saúde (OMS), que trata a desinformação não como classificação binária, mas como risco estratificado em cinco níveis, de muito baixo a muito alto. Dentro dele está a escala SoPHO-M (Severity of Potential Harmful Outcomes from Misinformation — Severidade de Resultados Potencialmente Danosos da Desinformação), que gradua o dano potencial do nível 1 (zero/negligenciável) ao nível 5 (risco de vida, irreversível ou catastrófico), calibrada por persistência, recorrência, reversibilidade, vulnerabilidade do público e efeitos cumulativos. O modelo já tem uma aplicação validada: a ferramenta Diet-MisRAT, publicada na Scientific Reports em março de 2026, avalia conteúdo de dieta e nutrição em quatro dimensões de risco (imprecisão, incompletude, enganosidade e dano à saúde) e foi testada em cinco rodadas com quase 60 especialistas, além de uma rodada com IA generativa (ChatGPT, em condição zero-shot — sem treinamento específico prévio), que apresentou alta confiabilidade, precisão e sensibilidade. O ponto sistêmico é que o risco não vem só do conteúdo: os autores explicitam que sistemas de geração, seleção, ranqueamento, recomendação e amplificação algorítmica — redes sociais e chatbots de IA — são mediadores do dano, e que tratar imprecisões triviais e desinformação potencialmente letal como equivalentes desvia atenção regulatória e recursos de moderação. O contexto dá densidade ao sinal: estima-se que suplementos respondam por cerca de 20% das lesões hepáticas induzidas por medicamentos nos EUA, e um estudo anterior apontou que seguir os conselhos de saúde de 53 “superdisseminadores” de redes sociais poderia expor até 24 milhões de pessoas a consequências graves.
E daí?
Se uma métrica graduada de dano ganhar tração, ela fornece exatamente a peça que falta à arquitetura regulatória já existente: o Regulamento de Serviços Digitais (DSA, na sigla em inglês) da União Europeia obriga as grandes plataformas (VLOPs — plataformas online de muito grande porte) a avaliar riscos sistêmicos, mas nunca definiu “desinformação” nem ofereceu métrica operacional de gravidade; o AI Act europeu e o Online Safety Act britânico seguem a mesma lógica de risco sem régua de severidade. Uma escala validada e auditável permite a reguladores como Ofcom (Reino Unido), Comissão Europeia e a eSafety Commissioner (Austrália) definir “linhas vermelhas” proporcionais, e a desenvolvedores de IA embutir salvaguardas antes do lançamento, em vez de reagir após o dano. O efeito de segunda ordem é duplo: de um lado, moderação proporcional reduz o risco de cercear conteúdo de baixo risco (proteção à liberdade de expressão); de outro, cria-se um padrão técnico que pode ser capturado por interesses — quem calibra a escala define o que é “perigoso”, o que torna a governança da própria métrica uma disputa política futura. Premissa desafiada: a convenção vigente de que desinformação se avalia como classificação binária verdadeiro/falso, tratando todo conteúdo enganoso como merecedor da mesma intervenção.
O que muda?
De: detecção binária de desinformação (é falso ou não é), com moderação, fact-checking e avaliações de segurança de IA incapazes de distinguir erro inconsequente de conteúdo potencialmente letal → Para: avaliação de risco estratificada e quantificável, análoga à toxicologia, em que a severidade do dano potencial — ponderada por exposição, vulnerabilidade e cumulatividade — determina a proporcionalidade da resposta de plataformas, reguladores e desenvolvedores de IA. Estágio atual: nascente — metodologia publicada e validada em um domínio (nutrição), mas ainda sem adoção regulatória ou industrial declarada.
Se sinal crescer
Se a lógica MisRAM/SoPHO-M escalar, escalas de severidade de dano podem virar infraestrutura padrão de compliance: auditorias de risco sistêmico do DSA passariam a exigir estratificação quantificada de desinformação; avaliações de segurança de modelos de linguagem de grande escala (LLMs) mediria não apenas taxa de erro factual, mas dano potencial calibrado; e plataformas reordenariam filas de moderação por nível de risco, rebaixando ou removendo primeiro o conteúdo de níveis 4 e 5. Nesse cenário, surgem mercados de auditoria independente de “risco informacional”, disputas sobre quem detém a autoridade de calibração das escalas e pressão para harmonização internacional de métricas — com o risco inverso de que escalas mal desenhadas institucionalizem censura de baixo risco ou deem fachada científica a decisões políticas de moderação.
Imagens
Ruani, A., Reiss, M.J. & Kalea, A.Z. Development and validation of a tool for detecting misinformation risk in diet, nutrition, and health content (Diet-MisRAT). Sci Rep 16, 9207 (2026). https://doi.org/10.1038/s41598-026-40534-2