Os números reunidos pelo relatório The Global 50 (2026), da Dubai Future Foundation (DFF), e pelo relatório "Renewable Power Generation Costs in 2024", da IRENA (Agência Internacional de Energia Renovável), sustentam uma afirmação precisa: a transição energética deixou de ser um problema de custo de geração e se tornou um problema de infraestrutura, capital e velocidade. O conjunto: 91% dos novos projetos renováveis comissionados em 2024 geram eletricidade mais barata que a alternativa fóssil de menor custo — vantagem que se manteve acima de 90% em 2025 —, com custo nivelado médio global de US$ 0,043/kWh para solar fotovoltaica e US$ 0,033/kWh para eólica em terra; o preço de módulos fotovoltaicos caiu de cerca de US$ 4,50 por watt em 2000 para menos de US$ 0,20 em 2024; e as renováveis, que geravam um terço da eletricidade mundial em 2025, são projetadas a mais de dois terços até 2050. Ao mesmo tempo, os números do gargalo: atender ao crescimento da demanda — puxado por data centers de IA, cujo consumo deve mais que dobrar até 2030, para 945 TWh, pouco acima do consumo anual do Japão — exigirá até US$ 3 trilhões em investimento em integração de renováveis e modernização de redes; nenhum dos 45 indicadores climáticos alinhados ao Acordo de Paris está no caminho das metas de 2030; e apenas 7% das mais de 10 mil organizações com compromissos de neutralidade de carbono têm estratégias críveis.
E daí?
Quando a opção mais barata já é a limpa, a variável decisiva deixa de ser tecnológica e passa a ser institucional: custo de capital (que a IRENA estima variar de 3,8% na Europa a 12% na África), filas de conexão à rede e capacidade de financiar transmissão. Isso redistribui poder no sistema elétrico — de quem gera para quem conecta, armazena e financia — e explica por que gigantes de tecnologia estão assinando contratos diretos de geração firme (geotermia, nuclear) em vez de esperar a rede. Para países emergentes, o dado de custo é ao mesmo tempo oportunidade (energia barata) e armadilha (sem capital barato e rede, a vantagem não se materializa).
O que muda?
De: transição energética justificada por imperativo climático e subsidiada contra a lógica de custo → Para: transição puxada pela economia pura, com o clima como beneficiário da arbitragem de preço. Estágio atual: ponto de inflexão consolidado na geração; a transmissão e o financiamento ainda estão na fase de gargalo estrutural.
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