Em janeiro de 2026, durante o 14º Encontro Nacional em Salvador, o MST lançou a IARAA (Inteligência Artificial da Reforma Agrária e Agroecologia), desenvolvida em parceria com a Marcha Mundial das Mulheres e a Associação Internacional para Cooperação Popular (Baobá). A ferramenta é treinada com o acervo do Iterra (Instituto Técnico de Capacitação e Pesquisa da Reforma Agrária) e do Instituto Educacional Josué de Castro — livros, cartilhas, teses, relatos de experiência sobre agroecologia, agroflorestas, manejo, cooperativismo e formação política marxista. A arquitetura foi concebida no Brasil sobre uma base de modelos de linguagem de origem chinesa, fruto direto da participação de militantes no Curso de Inteligência Artificial para Movimentos Populares do Sul Global realizado em Xangai em julho de 2025. O lançamento oficial está previsto para maio de 2026, na Feira Nacional da Reforma Agrária em São Paulo, com acesso inicialmente gratuito para cooperativas e assentamentos. Há diferentes perfis de prompt para famílias assentadas, técnicos agrícolas e dirigentes de cooperativas. A IARAA se inscreve numa corrente conceitual mais ampla — a 'soberania digital popular' — articulada também pelo MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) e por redes como Mocambos/Baobáxia, que defendem que tecnologia precisa ser apropriada e validada pelas comunidades, não apenas pelo Estado ou pelo mercado.
E daí?
A premissa dominante de que IA generativa é, por natureza, um vetor de concentração de capital, de dados e de poder cognitivo nas mãos de big techs e do agronegócio é desafiada por um ator que opera fora desses circuitos. O MST inverte o sentido típico do deployment de IA no campo: em vez de chegar ao agricultor via John Deere, Basf e Microsoft para otimizar monocultura de commodities, chega via movimento social para sistematizar conhecimento agroecológico distribuído, oral e historicamente subdocumentado. Isso introduz um vetor competitivo cognitivo no território rural — a disputa não é mais só por terra, crédito e mercado, mas pelo 'modelo mental' que o agricultor consulta sobre o que plantar, como manejar e por quê. Para fundações, agências de cooperação e governos, abre-se uma questão estratégica desconfortável: financiar IA popular pode ser mais barato e ter mais impacto territorial do que financiar instrumentos clássicos de extensão rural, mas exige aceitar atores fora do mainstream técnico-científico como produtores legítimos de tecnologia.
O que muda?
A categoria 'quem constrói IA' deixa de ser definida apenas por capital de risco ou Estado e passa a incluir movimentos sociais como produtores tecnológicos legítimos, com acervo, método e base de usuários próprios. A assistência técnica rural brasileira — historicamente fragilizada com o enfraquecimento da Emater em muitos estados — ganha um suporte distribuído, gratuito e ideologicamente alinhado, capaz de operar via celular em assentamentos de difícil acesso. A polarização do agro brasileiro ganha uma nova frente: não apenas commodity vs. agroecologia no plano produtivo, mas também IA-de-agronegócio vs. IA-de-movimento-popular no plano cognitivo, com cada lado tentando capturar a prática cotidiana do agricultor. Geopoliticamente, a escolha de stack tecnológica chinesa por movimentos brasileiros consolida uma rota Sul-Sul para acesso a infraestrutura de IA fora do eixo EUA/Vale do Silício.
Se sinal crescer
Se o modelo se consolidar e se replicar, é plausível observar: (1) uma onda de 'IAs de movimento' — sindicatos, povos indígenas, quilombolas, igrejas, cooperativas urbanas, MTST, movimentos de saúde popular — construindo LLMs verticais a partir de acervos próprios, com cooperação Sul-Sul (especialmente China) como rota principal de acesso à stack tecnológica; (2) pressão regulatória dupla, com big techs e setores conservadores questionando viés político, segurança e proveniência de dados em 'IAs militantes', enquanto movimentos exigem reconhecimento, financiamento público e proteção legal contra perfilamento estatal; (3) emergência de uma economia de infraestrutura compartilhada entre movimentos — data centers comunitários, modelos abertos federados, redes tipo Mocambos/Baobáxia aplicadas a IA — barateando o custo marginal de cada nova 'IA popular'; (4) redefinição do que conta como 'extensão rural' no Brasil, com Emater, empresas privadas e chatbots de movimento social competindo pelo acesso direto ao agricultor; (5) consolidação internacional da 'soberania digital popular' como bandeira política articulada com a soberania alimentar, com potencial de ser incorporada por blocos como BRICS+ ou por agências da ONU (FAO, em particular) em programas de cooperação técnica; (6) reação do agronegócio com IAs corporativas explicitamente posicionadas no campo ideológico, ampliando a 'guerra cultural do agro' para o terreno algorítmico.
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