A energia geotérmica — calor do subsolo convertido em eletricidade, a fonte renovável mais confiável por operar 24 horas por dia — responde hoje por apenas cerca de 1% da eletricidade global, limitada a regiões com reservatórios naturais de água quente. A nova geração da tecnologia rompe essa amarra geográfica: sistemas geotérmicos aprimorados (EGS, na sigla em inglês) criam reservatórios artificiais fraturando rocha quente e seca com as mesmas técnicas de perfuração horizontal do setor de óleo e gás. Os sinais de consolidação são financeiros e contratuais: o financiamento da geotermia de nova geração saltou de US$ 22 milhões em 2018 para US$ 2,2 bilhões em 2025; a americana Fervo Energy levantou US$ 462 milhões em dezembro de 2025 (série E, liderada pela B Capital, com Google entre os investidores) e fechou em março de 2026 um financiamento de projeto de US$ 421 milhões para a primeira fase da Cape Station, em Utah — que começa a entregar 100 MW à rede em outubro de 2026, tornando-se a primeira EGS comercial do mundo nessa escala, com expansão a 500 MW até 2028 e energia já contratada pela Southern California Edison e pela Shell Energy. Os custos de perfuração da Fervo caíram de US$ 1.000 para US$ 400 por pé, e as taxas de perfuração no site de Utah do programa FORGE, do Departamento de Energia dos EUA, melhoraram 500% entre 2017 e 2022. A demanda ancoradora vem das Big Techs: Google–Fervo (115 MW) e Meta–Sage Geosystems (150 MW a partir de 2027), ambas para data centers.
E daí?
A geotermia de nova geração ocupa o espaço mais disputado do novo sistema elétrico: geração limpa, firme e despachável, sem a controvérsia da nuclear nem a intermitência de solar e eólica. Há efeito de transferência tecnológica relevante — a indústria de petróleo se torna fornecedora de competência e mão de obra para a transição, e poços semi-abandonados podem ser reaproveitados (corte de 34% nas emissões frente à geotermia convencional, segundo o relatório). Bônus estratégico: projetos como o Lionheart, da Vulcan Energy na Alemanha, extraem lítio da salmoura geotérmica — a fase 1, com € 284,5 milhões do Banco Europeu de Investimento, deve suprir cerca de 12% da demanda europeia de hidróxido de lítio em 2030, acoplando energia e minerais críticos num só ativo.
O que muda?
De: geotermia como recurso regional restrito a zonas vulcânicas e tectônicas favoráveis → Para: geração firme ubíqua, viabilizada pela engenharia de perfuração, com contratos corporativos de longo prazo e financiamento de projeto bancário. Estágio atual: acelerando — 2026 marca a entrada da primeira planta comercial em escala; a replicabilidade do modelo fora dos EUA é o teste seguinte.
Imagens
Carbon Credits / Fervo