Em sistemas farmacêuticos estruturados em torno do licenciamento industrial, o fornecimento de medicamentos depende de uma decisão binária do detentor da patente: licenciar (e o medicamento existe) ou não licenciar (e o medicamento, na prática, não existe). O caso mais documentado de contestação a essa lógica ocorreu no veterinário: entre 2019 e 2024, tutores de gatos com peritonite infecciosa felina (FIP) nos Estados Unidos montaram o grupo FIP Warriors, que importou clandestinamente GS-441524 (antiviral da Gilead Sciences, eficaz mas nunca licenciado para uso animal) de laboratórios chineses, definiu protocolos de tratamento informalmente e distribuiu o composto a dezenas de milhares de tutores — até que, em 2024, a FDA (Food and Drug Administration, agência regulatória de medicamentos dos EUA) aceitou a manipulação do composto por farmácias sob não-fiscalização explícita. Esse caso, porém, é um ponto num padrão ainda fragmentário: pacientes de doenças raras recorrem a importação pessoal informal de medicamentos aprovados no exterior (como Replagal para doença de Fabry, disponível na Europa mas não nos EUA); e nos programas de acesso expandido (Expanded Access, uso compassivo) e Right to Try (lei federal de 2018 que permite acesso a medicamentos em investigação fora de ensaios clínicos), o fabricante permanece como gargalo — em 5% a 15% das solicitações, a negativa vem da empresa, que nenhum mecanismo legal obriga a fornecer.
E daí?
Se o padrão se confirmar, o gargalo do acesso a medicamentos deixa de ser apenas técnico-regulatório (aprovação da agência) e passa a ser também um problema de governança corporativa (decisão discrecional de suprimento), com resposta emergente não institucional: redes de pacientes acumulando dados de campo, negociando com fabricantes estrangeiros e forçando o regulador a adaptar-se. Para a indústria farmacêutica, isso significa risco reputacional e pressão por políticas públicas de suprimento obrigatório; para reguladores, o desafio de decidir quando tolerar a informalidade sem desmontar o arcabouço de segurança. Premissa desafiada: a indústria farmacêutica é o fornecedor natural e esperado de medicamentos — e, se ela não licencia, o tratamento simplesmente fica indisponível até que a aprovação regulatória regular ocorra.
O que muda?
De: suprimento de medicamentos como monopólio estrutural da indústria licenciadora, com comunidades de pacientes limitadas a advocacy e demanda → Para: comunidades de pacientes como atores logísticos e epistêmicos (fornecimento paralelo, protocolos informais, pressão normativa), com o regulador usando não-fiscalização e vias alternativas (manipulação, acesso expandido) para absorver a demanda não atendida. Estágio atual: nascente — um caso organizado e resolvido no veterinário (FIP, EUA, 2024), fragmentos isolados em doenças raras e recusas recorrentes mas pouco articuladas em saúde humana.
Se sinal crescer
A resposta institucional tende a formalizar-se: obrigação legal de suprimento em acesso expandido, licenciamento compulsório mais frequente para medicamentos abandonados (drugs de descarte por baixo mercado), criação de infraestrutura regulatória para "manipulação sob demanda" em escala, e surgimento de uma camada de intermediários legais (farmácias de manipulação, organizações de pacientes certificadas) entre a indústria e o paciente — com o risco paralelo de mercados cinzentos estruturados, como o lucro de US$ 4 milhões de uma administradora do FIP Warriors revelou.
Imagens
Krissy Krummenacker/MediaNews Group/Reading Eagle/Getty