O que é?
há sinais fortes de transição no setor elétrico, mas no sistema energético total o mundo ainda está em “adição de energia”, não em substituição — com emissões recordes.
O que está melhorando (sinais de transição)
Capacidade renovável vai dobrar até 2030: a IEA projeta +4.600 GW (≈ somar China+UE+Japão), com a solar respondendo por ~80% do aumento. Ainda assim, isso leva o mundo a 2,6× o nível de 2022 — abaixo da meta de triplicar até 2030 (COP28).
Queda da intensidade de carbono da eletricidade: a intensidade global caiu ~3% em 2024 (recorde), e a IEA projeta nova queda até 2027 mesmo com aumento da demanda.
Renováveis puxam o crescimento elétrico: em 2024, 80% do acréscimo de geração veio de fontes limpas (solar/eólica/nuclear/hidro).
O que ainda piora (ou freia o ganho)
Matriz energética continua fóssil: em 2024, 86% da oferta total de energia veio de fósseis. Renováveis geraram ~1/3 da eletricidade, mas só ~8% da energia total.
Emissões seguem em alta: as emissões de CO₂ relacionadas à energia cresceram +0,8% em 2024 para ~37,8 Gt (novo recorde).
Eficiência desacelerou: a intensidade energética do PIB melhorou só 1% em 2024 (abaixo dos ~2%/ano desejáveis).
Demanda estrutural cresce: o uso de eletricidade subiu +4,3% em 2024 (maior aumento absoluto fora de anos de saída de recessão).
Novos carregamentos (IA/data centers): consumo de data centers deve mais que dobrar para ~945 TWh em 2030 (Base Case), concentrado em poucos mercados — pressionando redes e, em parte, fósseis.
Veredito
Estamos mais sustentáveis no setor elétrico (mais renováveis e menor intensidade de carbono).
No agregado da matriz, ainda não: fósseis seguem dominando a oferta total e as emissões sobem. Em termos de transição, o mundo está adicionando renováveis mais rápido do que antes, mas não substituindo fósseis na velocidade exigida para metas climáticas.
Apesar dos avanços na eficiência energética e no aumento das fontes renováveis, o consumo global de energia e as emissões de CO₂ continuam a crescer. O 'paradoxo de Jevons' explica que o aumento da eficiência pode reduzir o custo por serviço energético, levando a um aumento na demanda e, consequentemente, no consumo total de energia.
Ideia-chave (Jevons): quando a eficiência sobe, o custo por serviço energético cai (ex.: mais km por litro, mais computação por kWh). Como fica mais barato “usar energia”, a demanda de serviços cresce. Esse “efeito rebote” pode anular parte das economias — e, em alguns casos, até superá-las (“backfire”). Revisões mostram que os rebotes diretos em edifícios podem ser grandes (medianas ~20% EUA, 35% Europa, ~89% China), e os efeitos economia-ampla tendem a ser maiores que o suposto, embora a evidência de backfire total não seja conclusiva.
Aplicando à transição atual:
Eficiência do sistema sobe (eletricidade renovável tem menos perdas de conversão; mais bombas de calor, motores elétricos, etc.), e os preços médios da eletricidade limpa caem → cresce o uso de serviços (ar-condicionado, eletromobilidade, data centers).
Resultado agregado: em 2024 a oferta global de energia cresceu +2% e fósseis ainda foram 86% do mix — sinal de adição líquida: põe-se muita renovável, sem retirar fósseis na mesma velocidade.
Exemplo emblemático de “rebote digital”: a eletricidade para data centers (IA) deve dobrar para ~945 TWh em 2030 (Base Case), crescendo ~15%/ano, muito acima do resto da demanda — parte desse aumento hoje é atendido por gás e carvão.
Mesmo com recorde de adições, a IEA projeta as novas renováveis subindo de 683 GW (2024) para ~890 GW (2030) — quase todo o crescimento vem de solar/eólica, mas a demanda total também sobe, mantendo fósseis relevantes.
Moral da história: estamos mais eficientes e mais limpos no setor elétrico, mas o efeito rebote — direto, indireto e macroeconômico — ajuda a explicar por que a demanda total cresce e os fósseis seguem altos. Eficiência sem suficiência (mudança de padrões de consumo) e sem tetos absolutos (cap/retirada de fósseis) tende a virar crescimento líquido de energia, não substituição.
E daí?
Isso desafia a crença de que a eficiência energética por si só resolverá os problemas climáticos. A transição energética enfrenta o desafio do efeito rebote, onde ganhos de eficiência são parcialmente ou totalmente anulados pelo aumento do consumo.
O que muda?
A necessidade de políticas que combinem eficiência com suficiência (mudança de padrões de consumo) e tetos absolutos para o uso de combustíveis fósseis se torna crucial. A mera adição de renováveis sem a substituição dos fósseis não garante a redução das emissões.