Na Ulsan National Institute of Science and Technology (UNIST), na Coreia do Sul, o professor Cho Jae-weon instalou o BeeVi (junção de 'bee' + 'vision'), um vaso sanitário a vácuo, sem descarga de água, que envia os dejetos para um tanque subterrâneo onde microrganismos os decompõem em metano. O gás alimenta equipamentos do prédio (fogão a gás, aquecedor de água e célula a combustível de óxido sólido). Cada uso do banheiro credita ao usuário 10 unidades de 'Ggool' ('mel', em coreano), resgatáveis em lojas do campus (café, miojo, frutas, livros) via QR code. Ressalva técnica: apesar de a cobertura de imprensa de 2021 rotular o Ggool como 'criptomoeda', a apuração da Reuters/Decrypt esclarece que ele não é minerável nem negociável — é um crédito fechado de campus, descrito pelos próprios criadores num estudo de 2016 como 'feces standard money', num gesto que mistura ciência e arte. Parâmetros citados de forma consistente entre as fontes: ~500 g de fezes/dia por pessoa ≈ 50 L de metano ≈ 0,5 kWh de eletricidade (energia para deslocar um carro ~1,2 km).
E daí?
O saneamento é historicamente contabilizado como despesa pura: capital de rede, tratamento, energia consumida para mover e processar efluente. O BeeVi materializa uma inversão dessa equação no ponto de geração — o banheiro deixa de ser o início de um custo e passa a ser o início de uma cadeia de valor (energia + adubo). Para foresight, o interessante não é a quantidade de energia (marginal por usuário), mas o deslocamento conceitual: se a unidade básica de saneamento pode ser desenhada como geradora líquida em vez de consumidora líquida, muda-se a lógica de viabilidade econômica de infraestrutura sanitária — especialmente em contextos de baixa cobertura de rede, onde o modelo centralizado é caro e lento de implantar.
O que muda?
Altera o que conta como 'infraestrutura de saneamento': de rede centralizada de afastamento (canalização → estação de tratamento → descarte) para nós descentralizados de recuperação de recurso acoplados à edificação. Muda o cálculo de quem projeta condomínios, campi, escolas e assentamentos: o sistema sanitário entra na conta energética do prédio em vez de só na conta de despesa. E reposiciona o debate de saneamento universal — relevante para o Brasil, onde a meta de universalização ainda enfrenta déficit estrutural — abrindo a hipótese de soluções distribuídas que se pagam parcialmente pela energia/adubo que geram, em vez de depender só de expansão de rede subsidiada.
Se sinal crescer
Se o sinal escalar, ele se acopla a um campo já em consolidação: a economia circular aplicada a waste-to-energy e à recuperação de recursos de efluentes, que literatura recente associa diretamente aos ODS 6 (água e saneamento), 7 (energia limpa) e 11 (cidades sustentáveis). A migração de 'sinal fraco' para 'tendência' exigiria: (1) réplicas documentadas fora de um único prédio universitário; (2) modelos de viabilidade que comprovem recuperação de custo via energia/adubo em escala real, e não só demonstração; (3) marco sanitário-regulatório para tratamento descentralizado de excreta humana com reúso de subprodutos. Se isso ocorrer, o saneamento descentralizado deixa de ser nicho experimental e vira opção de projeto urbano — com cadeia de fornecedores de bioreatores prediais, normas de segurança/rastreabilidade para biogás e biofertilizante de origem humana, e disputa sobre quem se apropria do valor gerado (morador, condomínio, concessionária ou plataforma de gestão).
Imagens

image courtesy of ulsan national institute of science and technology / cho jae-weon