Na edição 2026 do relatório The Global 50, da Dubai Future Foundation (DFF), a megatendência "Fronteiras da Energia" foi aposentada e substituída por "Redefinição das Finanças e dos Sistemas Monetários" — a única troca de megatendência desta edição, o que sinaliza onde a instituição vê a maior reconfiguração da próxima década. O fenômeno agrega tokenização de ativos reais (criação de representações digitais de títulos públicos, imóveis e arte em blockchain), moedas digitais de banco central (CBDCs — versões digitais de moedas soberanas), stablecoins (criptoativos lastreados em ativos estáveis, sobretudo o dólar) e infraestruturas de pagamento alternativas ao SWIFT, a rede interbancária que hoje concentra quase 90% das instruções de pagamento transfronteiriço. As evidências são densas: 91% dos 93 bancos centrais pesquisados pelo BIS (Banco de Compensações Internacionais) exploravam CBDCs, cobrindo jurisdições com 94% do PIB global; o mercado de stablecoins saiu de US$ 125 bilhões em julho de 2023 para cerca de US$ 310–320 bilhões em 2026, com 98% lastreados em dólar; o volume anual de transações com stablecoins superou US$ 33 trilhões em 2025, ultrapassando processadores tradicionais; e ativos tokenizados do mundo real podem alcançar US$ 30 trilhões até 2034. Em julho de 2025, os Estados Unidos sancionaram a GENIUS Act, primeiro marco federal do país para stablecoins de pagamento. Ao mesmo tempo, a participação do dólar nas reservas globais caiu de 71% (1999) para 57,1% (1º trimestre de 2026), sugerindo transição gradual para um sistema monetário multipolar.
E daí?
Trata-se de uma reescrita da camada de liquidação e confiança do sistema financeiro, não de um nicho cripto. Efeitos de segunda ordem incluem pressão sobre bancos comunitários (risco de fuga de depósitos para stablecoins, já alertado por associações bancárias americanas), repricing de incumbentes de pagamento (um estudo do FMI mediu queda anormal de cerca de US$ 22 bilhões no valor de mercado de 35 empresas de pagamento em torno da aprovação da GENIUS Act), e um dilema regulatório transfronteiriço: o relatório estima que US$ 129 bilhões em stablecoins — 84% de todas as transações ilícitas com cripto em 2025 — estiveram envolvidos em atividade ilícita. Para países como o Brasil, com moeda digital de banco central em desenvolvimento (Drex) e mercado de pagamentos instantâneos maduro, a questão passa a ser de interoperabilidade e soberania monetária, não de adoção.
O que muda?
De: sistema monetário unipolar, centrado no dólar e na infraestrutura bancária correspondente legada → Para: arquitetura multimodal de valor, com dinheiro programável, ativos tokenizados e competição entre modelos centralizados, descentralizados e híbridos. Estágio atual: acelerando, com marco regulatório americano em vigor e volumes recorde, mas o ponto de inflexão institucional — coordenação transfronteiriça de padrões — ainda está em aberto.
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