“Vanishing Culture” designa o desaparecimento progressivo e em larga escala da cultura – incluindo obras, informações, expressões artísticas e registos históricos – do acesso público. Este fenômeno não é uma simples deterioração, mas uma perda ativa e estrutural da memória coletiva.
E daí?
O relatório deixa claro que as consequências são profundas e estruturais: Lacunas na memória e na história: Sem registos preservados, perde‑se a capacidade de compreender o passado, responsabilizar políticos, verificar factos e combater a desinformação. “Se queremos perceber os mecanismos por onde a desinformação circula, precisamos absolutamente de arquivos de televisão, rádio e jornais”, escreve a investigadora Claire Wardle. Desigualdade no acesso ao conhecimento: Obras fora de catálogo, muitas vezes as únicas fontes sobre histórias de comunidades marginalizadas (LGBTQ+, povos indígenas, culturas africanas, mulheres), tornam‑se inacessíveis. Investigadores fora do circuito ocidental perdem ferramentas essenciais. Empobrecimento da reavaliação cultural: Muitas obras‑primas só foram reconhecidas décadas depois (It’s a Wonderful Life é um exemplo). Se o acesso é cortado, a sociedade perde a oportunidade de redescobrir e reavaliar o que hoje é ignorado. Monopólio corporativo da memória: A cultura fica à mercê de conglomerados que podem reescrever, editar ou eliminar conteúdos sem escrutínio público. O fluxo de conhecimento deixa de ser um bem comum e passa a ser controlado por interesses comerciais. Ameaça à democracia: Como destaca o relatório, a capacidade de apagar ou alterar registos sem deixar rasto enfraquece a prestação de contas e facilita a manipulação da opinião pública.
O que muda?
O Vanishing Culture assinala uma mutação fundamental na relação entre sociedade, cultura e memória: Da propriedade para a licença: A mudança mais estrutural é a passagem de um modelo em que se compravam objetos culturais (livros, discos, DVDs) para um modelo em que se paga por acesso temporário e condicionado. Isto retira a bibliotecas e cidadãos o direito de preservar e emprestar. O novo papel (e fragilidade) das bibliotecas: As bibliotecas, que historicamente equilibraram o interesse comercial com o interesse público, ficam agora impotentes. Sem poder comprar e possuir cópias digitais, não podem cumprir a sua missão de preservação a longo prazo. Legalidade e direitos de autor em tensão: O relatório mostra que as leis de copyright, prolongadas e rígidas, bloqueiam a preservação de “obras órfãs” e de software abandonado. O debate sobre exceções para arquivos, emulação e empréstimo digital controlado torna‑se um campo de batalha central. Consciência da materialidade digital: Aprendemos que o digital não é eterno nem imaterial – exige conservação ativa, energia e hardware compatível. Formatos como Flash, disquetes e fitas VHS estão a degradar‑se, tal como os pergaminhos de outrora. Ascensão dos arquivos comunitários e independentes: Perante a falha do mercado e das instituições tradicionais, surgem iniciativas cidadãs (coletores de filmstrips, comunidades de knitting com cartões perfurados, arquivos LGBTIQ+, o próprio Internet Archive). A preservação passa a ser também um ato de resistência e de cuidado. Alargamento do conceito de património: O relatório defende que tudo – do GIF animado ao caderno de receitas comunitário – é potencialmente relevante para compreendermos quem fomos e somos. A cultura deixa de ser apenas o “cânone” de grandes obras; passa a incluir a produção efémera, vernacular e doméstica. Em suma, o que o Vanishing Culture sinaliza é que a infraestrutura da memória coletiva está a ser privatizada e fragilizada. A resposta, segundo o relatório, passa por devolver às bibliotecas e ao público o poder de comprar, possuir e partilhar cultura, por leis de copyright equilibradas e por um investimento coletivo na preservação digital – antes que desapareça definitivamente.
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