Em maio de 2026, a Revista Sociedade Militar publicou relatos de alunos e familiares apontando aumento de desligamentos voluntários no período básico de formação da Escola de Sargentos das Armas (ESA), mesmo após a 'Semana Zero'. O motivo declarado, segundo os relatos, não é apenas o rigor da rotina militar, mas a constatação, durante a formação, de que sargentos de carreira em atividade complementam a renda como motoristas de aplicativo (Uber), inclusive instrutores. Embora não existam dados oficiais do Exército Brasileiro divulgados sobre o volume de evasão em 2026, o fenômeno foi documentado de forma convergente em pelo menos duas publicações especializadas (Sociedade Militar e Montedo.com.br) ao longo de 2025-2026, e dialoga com um estudo conjunto da UFLA e IFSEMG sobre evasão voluntária de militares de carreira, que aponta baixa remuneração, sobrecarga e falta de perspectiva como vetores principais. A CNN Brasil reportou perda de mais de 5 mil militares de carreira em 10 anos nas três Forças, e a Revista Oeste registrou 12 oficiais desligados em três semanas entre junho e julho de 2025, além de 50 baixas de pilotos da FAB no primeiro semestre de 2025.
E daí?
O sinal é estrategicamente relevante porque articula dois fenômenos antes tratados separadamente: a uberização do trabalho (Brasil tem 1,4 milhão de motoristas de aplicativo cadastrados, cerca de 7 vezes o efetivo do Exército) e a erosão silenciosa do contrato simbólico da carreira militar (estabilidade e prestígio em troca de dedicação exclusiva e renúncia a direitos como FGTS e horas extras). O dado de soldo inicial de 3º sargento em R$ 4.177 em janeiro de 2026 — após reajuste parcelado de 9% que não recompõe a defasagem acumulada desde 2019, segundo a ABRADEF — torna plausível a comparação que candidatos passam a fazer entre carreiras: praças das Forças Auxiliares estaduais (PMs) frequentemente recebem soldos superiores às patentes equivalentes das Forças Armadas. Se a observação direta da precarização do instrutor se consolidar como vetor de desistência na formação, o problema deixa de ser apenas remuneratório e passa a ser de socialização institucional: o ritual de iniciação militar começa a operar como anti-ritual, dissolvendo a expectativa em vez de consagrá-la.
O que muda?
Muda o lado da equação de recursos humanos que historicamente compensava o desgaste militar: o capital simbólico (farda, honra, prestígio, estabilidade) deixa de funcionar como amortecedor da precarização material. A consequência é o esvaziamento progressivo das fileiras médias do Exército (sargentos e oficiais intermediários), justamente onde se concentra o conhecimento operacional acumulado, comprometendo continuidade institucional, planejamento operacional de longo prazo e elevando custos de recrutamento e formação. Para candidatos jovens, muda também a função do concurso militar no portfólio de carreiras públicas: deixa de ser primeira escolha por estabilidade e migra para alternativa entre forças auxiliares ou setor privado de defesa.
Se sinal crescer
Se o sinal escalar, com replicação em outras unidades de formação (AMAN, EsPCEx, Escolas de Formação de Marinha e FAB), aumento mensurável de pedidos de desligamento na fase de adaptação, e cobertura por mídia generalista (não apenas especializada militar), isso aponta para três efeitos se desdobram. Primeiro, pressão por reestruturação salarial estrutural (não apenas reajustes parcelados), recolocando a pauta da Lei 13.954/2019 em discussão. Segundo, possível mudança de perfil socioeconômico dos candidatos: a carreira militar deixa de atrair a classe média baixa em busca de mobilidade e passa a depender de nichos vocacionais menores, encolhendo o pool de recrutamento. Terceiro, surgimento de novas formas de regulação ou tolerância oficial à pluriatividade militar (atualmente proibida no regulamento), abrindo precedente regulatório com implicações disciplinares e éticas significativas — incluindo o risco de a Força Armada aceitar institucionalmente a figura do militar que sustenta a profissão com bicos, o que reconfiguraria a identidade da instituição.
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Revista Sociedade Militar